Em junho de 2026, o mercado de derivados on-chain atingiu um marco estrutural significativo. De acordo com Zach Pandl, Head of Research da Grayscale, a atualização HIP-3 da Hyperliquid gerou aproximadamente 200 mil milhões $ em volume de negociação acumulado até junho de 2026, enquanto o open interest atingiu um pico em torno de 32 mil milhões $.
No mesmo período, a quota da Hyperliquid no open interest global de futuros perpétuos — abrangendo tanto bolsas centralizadas (como Binance, Bybit e OKX) como plataformas descentralizadas — atingiu cerca de 8,2%, estabelecendo um novo máximo histórico para o protocolo.
A convergência destes indicadores está intimamente ligada ao HIP-3, lançado em outubro de 2025, que introduziu os Builder-Deployed Perpetuals. Este mecanismo permite que builders terceiros lancem mercados de futuros perpétuos diretamente sobre a infraestrutura da Hyperliquid.
Em vez de depender de processos centralizados de listagem, a Hyperliquid está a evoluir para uma camada aberta de liquidação e execução financeira, onde a criação de mercados se torna permissionless, sob restrições pré-definidas.

Mecanismo HIP-3: De listagens curadas à implementação permissionless de mercados
Antes do HIP-3, a Hyperliquid baseava-se no modelo de listagem HIP-1, onde novos mercados perpétuos eram introduzidos através de um mecanismo de leilão holandês. Apesar de orientado pelo mercado, o protocolo funcionava ainda como uma camada de curadoria, determinando que ativos poderiam ser listados.
O HIP-3 elimina este entrave.
Permite que builders independentes implementem mercados perpétuos autónomos diretamente na camada de execução e liquidação da Hyperliquid. Cada implementação funciona como um ambiente de mercado independente, com parâmetros de risco configuráveis, regras de margem e estruturas de livro de ordens personalizáveis.
A Hyperliquid continua a fornecer a infraestrutura central, incluindo matching, liquidação, gestão de margens, cálculo de funding rate e liquidação de posições.
Isto cria uma camada de execução unificada com um design modular da camada de mercados.
Do ponto de vista técnico, os builders beneficiam da arquitetura Layer 1 da Hyperliquid e do consenso HyperBFT, que permitem uma execução de elevado débito e negociação de baixa latência, sem taxas de gas on-chain para o utilizador final.
Os builders têm de:
- Fazer stake de 500 000 HYPE como requisito de implementação
- Configurar parâmetros de risco e margem (atualmente margem isolada; cross-margin prevista para atualizações futuras)
- Manter e operar a infraestrutura do mercado implementado
Este modelo reduz significativamente o custo marginal de listagem de novos mercados, em comparação com as bolsas centralizadas tradicionais, onde a integração normalmente envolve análise jurídica, coordenação de liquidez e integração de market makers.
Fatores estruturais por detrás dos 200 mil M$ de volume acumulado
Entre outubro de 2025 e junho de 2026, os mercados HIP-3 contribuíram com mais de 200 mil milhões $ em volume de negociação acumulado. Este dado deve ser interpretado no contexto da expansão mais ampla do setor de derivados on-chain.
No 1.º trimestre de 2026, o volume global de negociação de perpétuos on-chain ultrapassou 2 biliões $, com a Hyperliquid a representar uma fatia significativa da atividade entre as plataformas descentralizadas.
Os derivados continuaram a dominar os mercados cripto em 2026, representando cerca de 90% do volume total negociado, com rácios de derivados para spot superiores a 9x. Isto evidencia a importância estrutural dos futuros perpétuos nos mercados de ativos digitais.
O padrão de crescimento da Hyperliquid sugere uma combinação entre expansão do mercado e aumento de quota de mercado. Embora a atividade setorial global tenha aumentado, o protocolo aparenta também ter conquistado quota a plataformas concorrentes.
Segundo os dados de mercado disponíveis, o HIP-3 contribuiu de forma relevante para o aumento do volume, ao permitir o lançamento rápido de novas classes de ativos, incluindo ações, commodities e perpétuos indexados.
Os mercados perpétuos ligados a commodities, em particular, registaram uma expansão significativa no início de 2026, refletindo a crescente procura por exposição 24/7 a instrumentos financeiros tradicionais.
8,2% de quota global: uma mudança na estrutura de mercado
Em junho de 2026, a quota estimada da Hyperliquid no open interest global de futuros perpétuos atingiu aproximadamente 8,2%, com base em dados agregados de mercados centralizados e descentralizados.
Este valor é especialmente relevante por refletir a competição ao nível global, e não apenas no segmento DEX.
Historicamente, as bolsas descentralizadas de perpétuos representavam uma pequena fração do open interest total. Contudo, esta quota aumentou de forma significativa desde 2024, passando de cerca de 2,0% para mais de 10% no início de 2026.
No segmento DEX, a Hyperliquid destacou-se como protocolo líder, representando a maioria da atividade de negociação de perpétuos descentralizados, segundo várias estimativas do setor.
Apesar das bolsas centralizadas continuarem a dominar a profundidade de mercado e os fluxos institucionais, as plataformas de derivados on-chain têm vindo a aumentar gradualmente a sua presença nos mercados globais de futuros perpétuos.
O valor de 8,2% sugere que as plataformas on-chain estão a começar a estabelecer uma presença mensurável num mercado historicamente dominado por infraestrutura centralizada.
Tokenomics do HYPE: captação de valor através de taxas do protocolo
A expansão do HIP-3 está intimamente ligada ao modelo económico do token HYPE.
A Hyperliquid não recorreu a capital de risco externo e é totalmente autofinanciada. O fornecimento total de HYPE é de 962 milhões de tokens, com cerca de 26% em circulação em meados de 2026. O restante está sujeito a calendários de vesting prolongados até 2028.
O mecanismo de captação de valor do protocolo baseia-se na afetação de taxas a um Assistance Fund, que utiliza aproximadamente 97% das taxas de negociação para adquirir tokens HYPE no mercado aberto.
Isto cria uma ligação estrutural entre a atividade na plataforma e a procura pelo token. À medida que o volume de negociação aumenta, geram-se mais taxas, o que aumenta a pressão compradora sobre o HYPE através do mecanismo do Assistance Fund.
No 1.º trimestre de 2026, o protocolo terá alocado cerca de 192 milhões $ para recompras de HYPE. As recompras acumuladas já ultrapassaram 1,3 mil milhões $, segundo fontes de dados públicas.
Este mecanismo contribui para um efeito de retroalimentação, em que o aumento da utilização suporta a dinâmica de procura do token, enquanto a participação em staking reforça a segurança da rede.
O HIP-3 funciona como uma camada de expansão deste sistema, ao alargar o leque de ativos negociáveis para incluir ações, commodities e índices, podendo aumentar a geração global de taxas ao longo do tempo.
O interesse institucional também já se fez sentir, incluindo produtos ETF iniciais que acompanham o HYPE, os quais registaram entradas e atividade de negociação nos primeiros tempos de listagem. Contudo, estes fluxos devem ser vistos como participação inicial de mercado, e não como indicadores de procura estável a longo prazo.
Persistem riscos, nomeadamente associados aos desbloqueios programados de tokens, que poderão introduzir oferta adicional ao longo do tempo e influenciar a dinâmica de mercado no curto prazo.
DEX vs CEX em 2026: transição estrutural em curso
A expansão do HIP-3 e o aumento da quota de mercado da Hyperliquid refletem uma mudança estrutural mais ampla na negociação de futuros perpétuos.
Os volumes de derivados em bolsas centralizadas diminuíram face aos máximos de 2025, enquanto os volumes de perpétuos descentralizados continuaram a crescer de forma constante em 2026.
Os principais fatores que impulsionam a adoção de bolsas descentralizadas incluem:
- Redução do risco de contraparte e de custódia
- Execução e liquidação transparentes
- Acesso global ao mercado 24/7
- Melhoria das condições de negociação e liquidez
O HIP-3 acelera ainda mais esta tendência ao permitir que instrumentos financeiros tradicionais sejam representados como mercados perpétuos on-chain, ligando eficazmente a procura institucional por ativos à infraestrutura descentralizada.
A negociação de perpétuos ligados a ativos do mundo real (RWA) também aumentou de forma significativa em 2026, refletindo um interesse mais amplo na exposição tokenizada a mercados tradicionais.
Embora as bolsas centralizadas mantenham posições fortes na provisão de liquidez e rampas fiat, as plataformas descentralizadas estão a expandir gradualmente a sua quota na atividade incremental de mercado.
Mais do que uma substituição direta, a fase atual parece refletir uma expansão paralela, em que os ecossistemas CEX e DEX crescem em segmentos distintos do mercado de derivados.
Conclusão
Em menos de nove meses, o HIP-3 contribuiu para mais de 200 mil milhões $ em volume de negociação e sustentou uma quota estimada de 8,2% da Hyperliquid no open interest global de futuros perpétuos.
Estes desenvolvimentos refletem uma evolução estrutural mais ampla na arquitetura de mercado, em que a infraestrutura de derivados on-chain se revela cada vez mais capaz de suportar tanto ativos cripto-nativos como instrumentos financeiros tradicionais.
O modelo de implementação permissionless do HIP-3 reduz os entraves à listagem e permite uma rápida expansão dos mercados, enquanto o token HYPE capta valor através de um mecanismo de recompra baseado em taxas, que liga a utilização do protocolo à economia do token.
De um modo geral, a Hyperliquid representa um dos exemplos mais claros de como as camadas de execução on-chain estão a evoluir para uma infraestrutura financeira de uso geral.
O desenvolvimento futuro dependerá provavelmente da participação dos builders no ecossistema HIP-3, da expansão para novas classes de ativos e da contínua evolução da estrutura global do mercado de derivados.


